O plástico está em tudo: da embalagem dos alimentos que chegam à mesa ao equipamento hospitalar, passando pelas estufas agrícolas, sistemas de irrigação, transporte e construção civil.
Ainda assim poucas matérias-primas foram tão demonizadas – e por tanto tempo – quanto os materiais plásticos.
Só que essa narrativa, na maior parte das vezes, ignora dados técnicos, a evolução da indústria e, sobretudo, o potencial do plástico como ferramenta de inclusão social, geração de renda e proteção ambiental quando é usado e gerido de forma responsável.
É exatamente nessa encruzilhada (entre mito e ciência, problema e solução) que atua o empresário Rui Katsuno, nosso entrevistado no último episódio de 2025 do Lonax Play.
Com mais de 35 anos de experiência na indústria, Rui começou aos 14 anos no chão de fábrica e se tornou uma referência nacional em termoformagem.

À frente da MTF Termoformadoras, empresa responsável pela maior produção de máquinas termoformadoras da América Latina, ele vive o dia a dia da indústria de transformação, com foco em inovação, tecnologia e excelência produtiva. Não fala de plástico a partir de teoria abstrata: fala de dentro da fábrica, do contato com clientes, fornecedores, operadores de máquina e dos desafios concretos de produzir mais, com menos impacto e mais valor agregado.
Mas Rui não se limita ao universo empresarial. Ele é fundador e presidente do Instituto Soul do Plástico, uma iniciativa socioambiental que leva educação ambiental, economia circular e desenvolvimento humano para escolas, comunidades e projetos sociais.

A proposta é ousada: mostrar na prática que o plástico é um material circular por natureza e que o problema não está nele em si, mas na forma como a sociedade lida com consumo, descarte e reaproveitamento. Em vez de discursos abstratos, o Instituto trabalha com projetos estruturados, presença em campo e resultados mensuráveis.
No Ensino Médio, o Instituto Soul do Plástico leva para dentro das escolas máquinas, processos produtivos e formação profissional, conectando educação ambiental, introdução à indústria, noções de comércio, educação financeira, inclusão e premiação. O jovem deixa de ver o plástico apenas como “lixo” e passa a enxergá-lo como insumo, oportunidade de carreira e geração de renda. É economia real entrando pela porta da sala de aula, aproximando estudantes das cadeias produtivas e das demandas do mercado de trabalho.

No Ensino Fundamental, o foco é formar consciência desde cedo. O Instituto trabalha com pilares como educação ambiental, altruísmo, educação financeira, inclusão do grupo e aproximação da família, integrando ainda um projeto cultural.
A criança aprende a separar resíduos, entender o valor do reaproveitamento e reconhecer que o plástico, quando coletado, reciclado e reinserido na economia, pode financiar projetos, apoiar famílias e movimentar cadeias de coleta e reciclagem. É uma visão que conecta meio ambiente, cidadania e inclusão social.
Além da vivência empresarial e social, Rui ocupa cargos institucionais relevantes: é Primeiro Secretário da Frente Parlamentar da Economia Circular, consultor técnico da Frente Parlamentar do ESG, vice-presidente da ABIMAQ na Câmara Setorial de Máquinas para a Indústria do Plástico e vice-presidente da Associação Comercial de Mairiporã.
Lonax Play – Rui, por que o plástico se tornou um “vilão perfeito” na opinião pública e que pontos dessa narrativa você considera mais injustos ou distorcidos?
Rui – O plástico virou o “vilão perfeito” por um motivo simples: ele é bom demais!
Tão bom, tão eficiente e tão superior em tantas aplicações que nunca precisou de propaganda.
Ele foi, dia após dia, tomando mercado de materiais tradicionais (mais pesados, mais caros, menos higiênicos, menos eficientes). E quando um material conquista espaço dessa forma, naturalmente gera incômodo em quem o perdeu.
Lonax Play – Na prática, como o Instituto Soul do Plástico transforma o plástico em ferramenta de inclusão social dentro das escolas e comunidades onde atua?
Rui – Nas escolas, cursos técnicos e comunidades, nós levamos máquinas, treinamos os jovens e mostramos ao vivo como funciona a economia circular. Eles veem o plástico ser coletado, separado, processado e transformado em novo produto na hora. É aprendizado prático, não é teoria distante.
Esse processo gera algo muito poderoso: renda, consciência crítica e pertencimento.
Lonax Play – Você pode compartilhar um caso concreto em que a economia circular com plásticos gerou renda e impactou positivamente famílias ou jovens de baixa renda?
Rui – Sim, temos um caso concreto e transformador: a implementação do nosso projeto de economia circular na ETEC de Mairiporã.
Esse foi o primeiro projeto estruturado do Instituto Soul do Plástico e hoje ele está em plena operação, gerando conhecimento, orgulho e oportunidades reais.
Em parceria com a Prefeitura e com a própria ETEC, capacitamos os 350 alunos para operar as máquinas, entender o fluxo completo da economia circular e transformar resíduos plásticos em novos produtos. A prática virou aprendizado e o aprendizado virou impacto social.
Lonax Play – Quais são hoje os principais gargalos que impedem que a economia circular dos plásticos aconteça em escala no Brasil e onde estão os bons exemplos que já estão dando certo?
Rui – Hoje o maior gargalo para a economia circular dos plásticos acontecer em escala no Brasil se resume a uma palavra: educação.
Quando discutimos materiais plásticos dentro da nossa própria bolha – indústria, associações, especialistas – todos chegam exatamente à mesma conclusão: precisamos educar as pessoas.
Sabemos o diagnóstico mas não vemos políticas públicas que realmente expliquem para a população o que é a economia circular e por que ela é fundamental.
Foi justamente por isso que nasceu o Instituto Soul do Plástico:
decidimos sair do palco, parar de apenas discursar e ir para a ação.
Lonax Play – A partir da sua atuação em frentes parlamentares de Economia Circular e ESG, que tipo de política pública é realmente capaz de acelerar o plástico sustentável no país?
Rui – Dentro das frentes parlamentares de Economia Circular e ESG, o que realmente acelera o plástico sustentável no Brasil são políticas públicas que atacam a raiz do problema: infraestrutura, simplificação e educação.
Hoje já temos dois projetos de lei em tramitação que nasceram exatamente dessa visão prática:
O código de cores unificado, que facilita a identificação e a separação correta dos materiais;
A etiquetagem para embalagens termo formadas, que traz rastreabilidade, transparência e auxilia toda a cadeia da reciclagem.
Além disso, estamos escrevendo um novo projeto para reduzir a carga tributária dos recicladores, reconhecendo que eles são o coração da economia circular. Não existe plástico sustentável sem reciclagem forte.
Outras ideias têm surgido e são fundamentais para acelerar essa agenda:
- Incentivar a substituição de estruturas multicamadas por mono camadas, facilitando a reciclagem;
- Criar programas para ampliar coleta, triagem e usinas de reciclagem;
- Estimular a indústria a investir em design circular e rastreabilidade;
- E, principalmente, inserir educação ambiental e economia circular nas escolas, porque é impossível escalar sustentabilidade sem formar consciência desde cedo.
Da redação Lonax Play.
Lincoln Gomide, Jornalista Responsável.
Com revisão da equipe de Comunicação da Lonax.
