A biogenômica representa um dos maiores avanços científicos das últimas décadas e vem sendo descrita por pesquisadores e executivos da biotecnologia como um salto quântico na forma de entender e manipular a vida.

Essa nova fronteira combina genômica, bioinformática, inteligência artificial e engenharia genética para acelerar descobertas e transformar conhecimento molecular em aplicações práticas, com impacto direto em áreas como agricultura, saúde e indústria.
No contexto da 4ª Revolução Industrial, essa convergência digital/bio acelera triagens genéticas e a modelagem de vias metabólicas com IA, encurtando ciclos de P&D e elevando a taxa de acerto em soluções para soja, milho e cana.
O termo ‘salto quântico’ não é usado à toa. Enquanto as tecnologias anteriores permitiam identificar genes ou isolar enzimas específicas, a biogenômica permite compreender sistemas inteiros – do microbioma do solo a comunidades de micro-organismos em plantas e animais – revelando interações antes invisíveis. O resultado é um aumento exponencial na capacidade de prever, modificar e otimizar processos biológicos. A análise multi-ômica (genoma, metagenoma, transcriptoma e metaboloma) e bancos de microbiomas permitem antecipar respostas a estresses hídrico e biótico, direcionando programas de bioinsumos para nichos de maior impacto.
Entre os campos mais beneficiados por essa revolução está o da tecnologia enzimática. As enzimas, proteínas que catalisam reações químicas naturais, tornaram-se ferramentas estratégicas para a indústria e o agronegócio.
Graças à biogenômica e à engenharia de proteínas, hoje é possível desenhar enzimas sob medida, com maior estabilidade térmica, resistência a pH extremos e maior eficiência catalítica. São as chamadas enzimas de alta performance.
Após a fusão de Novozymes e Chr. Hansen, a Novonesis reforçou o foco global em enzimas e culturas microbianas. O mercado de enzimas industriais foi estimado em aproximadamente US$ 7,5 bilhões em 2024, com crescimento anual acima de 6% nos próximos anos.
Na prática, isso significa reações industriais mais limpas, rápidas e econômicas. Na produção de biocombustíveis, por exemplo, enzimas otimizadas conseguem quebrar celulose e lignina com muito mais eficiência, reduzindo o uso de solventes e energia.
No setor alimentício, as mesmas tecnologias permitem melhorar sabor, textura e conservação de produtos.
Já no campo, enzimas personalizadas ajudam na degradação de resíduos agrícolas e na liberação de nutrientes para o solo.

Em bioenergia, coquetéis enzimáticos elevam a hidrólise de celulose em bagaço de cana. Em alimentos, proteases e amilases estabilizam textura com menos aditivos. Em solo, lignocelulases e fosfatases aceleram a ciclagem de nutrientes.
Outro pilar dessa nova era são os biológicos de alta performance. Em vez de depender de insumos químicos convencionais, agricultores e indústrias começam a adotar microrganismos e compostos naturais desenvolvidos em laboratório para desempenhar funções específicas: estimular o crescimento vegetal, combater pragas, melhorar a fixação de nitrogênio ou atuar como biofertilizantes inteligentes.
Esses biológicos são fruto da integração entre biogenômica, tecnologia enzimática e processos de fermentação avançados.
Bioestimulantes e bioprotetores à base de Bacillus, Trichoderma e Pseudomonas tornaram-se rotina nas grandes culturas. Inoculantes ampliam fixação biológica de nitrogênio e solubilização de fósforo, e soluções híbridas integram enzimas e consórcios microbianos.
O impacto econômico desse movimento é expressivo. Estimativas da consultoria Markets and Markets indicam que o mercado global de biotecnologia agrícola deve ultrapassar 180 bilhões de dólares até 2030, impulsionado justamente por produtos biológicos e soluções enzimáticas de nova geração.

No Brasil, o crescimento acompanha o ritmo mundial: a demanda por bioinsumos já cresce a taxas anuais superiores a 30%, com destaque para biofertilizantes e inoculantes microbianos. Projeções recentes indicam biológicos agrícolas próximos de US$ 35 bilhões até 2030, enquanto a biotecnologia vegetal pode superar US$ 76 bilhões.
No Brasil, vendas de bioinsumos atingiram cerca de R$ 5 bilhões na safra 2023/24, com crescimento acima de 20% ao ano.
As perspectivas também são promissoras para o setor industrial. O desenvolvimento de biocatalisadores capazes de substituir reagentes químicos tóxicos reduz emissões, corta custos e aproxima as empresas das metas de ESG.
Grandes players da química fina e da produção de polímeros já investem em enzimas desenhadas por computador, que realizam em segundos o que reações químicas convencionais demorariam horas para completar.
Em indústria, biocatalisadores substituem reagentes agressivos, cortando etapas e energia. Casos incluem reciclagem enzimática de PET e tratamento de efluentes com consórcios microbianos; pipelines se expandem com desenho assistido por IA.
Apesar do entusiasmo, o avanço da biogenômica e dos biológicos de alta performance ainda enfrenta desafios consideráveis.
A escalabilidade de produção, a regulação de organismos geneticamente modificados e o custo de validação em larga escala ainda são barreiras importantes. Além disso, o uso responsável dessas tecnologias requer políticas públicas claras e um arcabouço ético que garanta segurança ambiental e transparência.
A regulação avança, mas há assimetrias entre países e categorias (biopesticidas, biofertilizantes, bioestimulantes e OGM). No Brasil, o Programa Nacional de Bioinsumos (Mapa, 2020) e iniciativas da Embrapa organizam catálogos e boas práticas.
Outro desafio está na formação de profissionais. A convergência entre biologia molecular, química, ciência de dados e engenharia exige novas competências, e o Brasil ainda carece de programas robustos que integrem esses saberes.
Laboratórios públicos e privados precisam investir em infraestrutura, automação e análise computacional para acompanhar a velocidade das descobertas globais. Cresce a demanda por perfis híbridos: biólogos computacionais, engenheiros de bioprocessos e cientistas de dados com estatística experimental. Laboratórios automatizados e fazendas experimentais exigem integração de dados e parcerias para escalar.

Ainda assim, a trajetória é irreversível. A biogenômica inaugura uma nova era da biotecnologia; mais inteligente, sustentável e precisa. O uso de enzimas projetadas, microrganismos otimizados e biológicos de alta performance redefine o modo como produzimos alimentos, energia e materiais. E, nesse processo, o Brasil desponta como um dos países com maior potencial de aplicação dessas inovações, graças à sua biodiversidade e à força de seu agronegócio, o país combina biodiversidade única e agro de alta tecnologia, com adoção rápida de biosoluções. IA aplicada a dados agronômicos, formulações enzimáticas e consórcios microbianos já entrega ganhos mensuráveis em produtividade e sustentabilidade.
O salto quântico da biogenômica, portanto, não é apenas tecnológico. É também econômico e ambiental. Ele marca o início de um ciclo em que ciência e sustentabilidade caminham juntas para criar uma bioeconomia mais eficiente e limpa, capaz de transformar o conhecimento genético em valor real, seja em laboratórios, fábricas ou lavouras.
Da redação Lonax Play.
Lincoln Gomide, Jornalista Responsável.
Com revisão da equipe de Comunicação da Lonax.
